Archive for the ‘Série – O Descafeinado’ Category

O descafeinado – Parte II

Posted: 25 de Fevereiro de 2009 by Dê Cê ÉL in Série - O Descafeinado

O  – Parte II, Querendo voar.

 

   Vael lê atentamente o jornal desportivo do costume, para saber as boas novas do seu clube futebolístico.

   São já dez da manhã, são horas do passeio rotineiro pela cidade. O rapaz coloca os auscultadores nos ouvidos, endireita o seu gorro negro na cabeça, juntamente com aqueles grandes óculos escuros de aviador, paga a sua despesa no café e segue marcha.

Vagueia por aquelas estreitas ruas citadinas, vê bocas de pessoas a gesticular palavras, mas o que ouve apenas é aquele suave tom melódico do piano, no seu leitor de Mp3. Onde vai não sabe – gosta de ser assim, não ter asas, mas sendo igualmente livre, isento de explicações a qualquer um – independentemente saudável de opressões.

   Vael não é de todo um rapaz normal da sua idade, possui uma altura fora da média, acima do metro e oitenta, estatura corpulenta e bem desenvolvida, muito porque, desde muito cedo no orfanato, se interessou pelo desporto, tornara-se um atleta exímio em várias modalidades, mas uma grave lesão retirou-o dos recintos desportivos para sempre.

   Tem olhos negros, negros como a noite sem lua, cabelo louro como ouro puro, o seu sorriso é bastante  apreciado pelo  público feminino, assim como o seu físico. Mas não é com as raparigas que conhece todos dias que Vael procura libertar-se das pressões da vida diária, isso,ele faz com a música, o seu único amor. Há amigos seus que dizem ele ter mãos de pianista, muito grandes e bem desenvolvidas, embora este somente soubesse ouvir e não tocar, pois apenas sabia o básico de bateria – tivera uma banda no passado.

   O forte e  adolescente acende aquele forte cigarro e vai fumando, mudando o som para algo mais dançável e ali vai – ele e a música, no seu mundo totalmente, àparte.

   Dá voltas e voltas em ruas tortas e direitas, eis que sem querer escolhe um destino – A marina. Vai para lá, abre a porta entre-aberta e supostamente interdita a estranhos, caminha naquela ponte onde estão acostados os barcos e iates e deita-se no limiar desta, acendendo outro daqueles cigarros, ouvindo calma música italiana, estendendo os braços – como que uma almofada – por trás da nuca e inspira e expira, vezes incontáveis, aquela brisa marinha doce e vendo bem lá em cima todas as gaivotas voando bem alto e questionando-se, o que faria, por onde viajaria, se pudesse voar como elas.

   Sem pensar, com a música ligada, ali permanece – e adormece – ele nem sonha, o que o futuro lhe reserva de voos.

 

Diogo.Leal 2009

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O Descafeinado

Posted: 14 de Fevereiro de 2009 by Dê Cê ÉL in Série - O Descafeinado

Hoje começa esta novela e série especial da autoria dos bloggers do vertice – O Descafeinado.

Espero que apreciem.

Episódio I – o Ínicio.

Quatro horas da madrugada. A noite já é uma adolescente precoce. Morcegos escassos pairam no telhado daquele moribundo orfanato. É Dezembro de mil novecentos e oitenta e nove, chove torrencialmente e Ágda, a suja meretriz loira e com beleza bem treinada, vem acompanhada de um guarda-chuva velho cinza, o que não lhe protege totalmente de toda aquela tempestade. Abiga-se no interior no interior da entrada de um prédio – número oito – e pousa uma grande cesta castanha e pesada, no chão. Vai ao bolso do seu emprestado casaco de cabedal negro e dele retira um pequeno invólucro com um pózinho branco no seu interior. Nisto um trovão cai sobre o solo molhado – aquele cesto estremece, parece até que berra de graves agonias, mas supostamente podia-se pensar talvez ser apenas comida do super-mercado. Tira do bolso oposto uma colher, tão ressequida como a mais porca imundez e uma seringa, com a sua comprida agulha, meio torta. Levanta, com toda a pressa de uma viciada, a manga direita do casaco, prepara toda aquela venenosa poção de cocaína, injecta-se e cai, com toda a violencia na queda, no chão.

Horas passam, minutos, segundos…

E quem por ali passa não vê mais se não um (quase) cadáver estendido na triste calçada, borbulhando espuma de overdose.

Seis de Dezembro de dois mil e nove.

Sete e meia da manhã. Llerico Vael está no café, saboreando o seu descafeinado rotineiro, olhando, sem sono, para o analógico relógio, esperando pela sua matinal torrada e galão, e por mais outras aventuras.