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In Shrew Ter View

Posted: 30 de Março de 2009 by Dê Cê ÉL in In Shrew Ter View

 

 Rui Slinkman Valdiviesso

E assim que é criada uma nova rubrica no Vértice redondo. E de onde veio o nome para o seu título? Ora, fora separado o termo inglês “interview”, fundido com aqueloutro também do mesmo país “shrew”, para quem não sabe, esta ultima palavra é inspirada e alusiva à célebre peça de William Shakespeare, “The taming of the shrew”, sendo que essa palavra é alusiva á portuguesa “Inteligente”. Como já se depararam, é como que uma “Entrevista Inteligente”.

“Há uns anos atrás, tive algumas discussões por causa da música exclusivamente electrónica baseada em samples e sequências e sobre a sua implicação em negócios obscuros relacionados com estupefacientes. Meu caro, actualmente, mantenho por um lado que há mais mérito na música instrumentalizada por uma pessoa ou por um conjunto, onde os actos de criatividade são muito mais abrangentes pois ao músico permite-se entrar em meios infinitos. Pelo contrário, na música exclusivamente electrónica, a maior parte das sonoridades está feita e pronta a “misturar”, ou seja, o criador deste tipo de música pega em combinações pré-existentes e trabalha sobre elas para lhes dar outra forma. Por outro lado – e é aqui que ao longo do tempo tenho moderado a minha opinião – não deixa de haver criatividade neste acto de corta e coze e acrescenta da música House e Chill e géneros associados. E mais: admito que este tipo de música pode levar grupos de pessoas a encontrarem-se com as suas raízes ancestrais, devido ao ritmo promotor de transes e ao efeito da partilha das massas por esses ritmos e movimentos corporais. Para mim, que sou descrente em transcendências, não tem a ver tanto com espiritualidade como tem a ver com algo que nos é natural: a simetria, a busca do ritmo, da batida, o alinhar o nosso corpo e mente com coisas que nos são confortáveis e nos fazem sentir bem e nos são naturais e fáceis de assimilar. Não é por acaso que ouvimos com muito mais conforto mental músicas com ritmos certos do que, por exemplo, Jazz de fusão, que utiliza construções de compassos bastante variáveis. Claro que, no final, se nos propusermos a isso, a nossa mente poderosa e incrivelmente capaz vai encontrar sempre a razão de ser do ritmo, tenha ele a complexidade que tiver.
A música é só uma. Para mim, cada vez mais me faz confusão alinhar a música em géneros, metê-la em recipientes fechados.” – Por Slinkman

E é assim que introduzo o meu primeiro convidado, e que convidado, meus caros. Não poderia escolher ninguém melhor do que Rui Valdiviesso. Para além de ser mais um colega criador de blogues e de ter um gosto e cultura intermináveis em música, contém um mestrado em Biologia, já foi professor da mesma disciplina (aliás, leccionou-me durante dois anos no secundário, a ele devo todos os meus conhecimentos em Geologia e Biologia) e actualmente estuda Nutrição. Este Homem não pára! Detentor de um sentido de humor imparável e de uma inteligência nobre, é com todo o gosto que atento que aceitaste este meu convite, aqui ficam as questões. Aproveitem caros leitores, pois pode não ser todos os dias que temos alguém tão célebre disponível a colaborar com o vértice.

Saudações virtuais, Slinkman. Antes de mais dizer, fica aqui todo o agradecimento da equipa do Vértice, pela tua generosa cooperação. Diz-me, o que podem os leitores e cibernautas encontrar no teu blogue mais conhecido, o “Le-musicien” (http://www.le-musicien.blogspot.com)?

O Le Musicien é um blog a olhar para o umbigo. Falo do que gosto e do que não gosto, tudo numa perspectiva pessoal. Sendo um blog que fui e vou construindo à medida que me vai apetecendo, não tem ainda grande interacção com os leitores, pois tem uma péssima taxa de actualização. Às vezes passam-se semanas, meses sem escrever.
Mas o que se pode encontrar lá, concretamente, são ideias sobre música e sobre o imaginário com ela relacionado. Como por exemplo, a rubrica “Freak show”, que já tem mais que 20 edições e que pretende fazer humor com música.

Como blogueiro, como encaras o papel das novas tecnologias na sociedade actual?

Isso seria tema para uma longa dissertação… Como blogueiro rudimentar, amador e preguiçoso, as novas tecnologias levam-me a chegar mais longe e a mais pessoas do que chegaria se partilhasse as minhas ideias no meu círculo pessoal, e também a conhecer as ideias dos outros. As novas tecnologias, por um lado, têm esta capacidade maravilhosa de aproximar as pessoas mas, por outro lado, podem criar fossos, alienações de nós mesmos e da forma como lidamos com os outros. Eu sou ainda de uma geração que dá um valor enorme à pessoa física e cresci com essa forma de viver, se bem que assisti ao boom dos computadores pessoais e, mais tarde, da internet e também fui contagiado por todo esse ambiente meio geek, de passar noites a penar jogos de estratégia, ou a esperar um minuto ou mais que uma página abrisse, na altura das ligações de 56k. Mas já na geração anterior havia o ZX Spectrum e as pessoas não deixavam de sair e estar com os amigos, e acredito que nas próximas gerações isso nunca se deixe de fazer, com mais ou menos frequência.

Não saindo do mesmo tema, diz-me o que achas de toda esta anedota chamada “Magalhães”?

O Magalhães tem tanto de boa e útil ferramenta como de propaganda política e ainda como negócio de muitos milhões. A ideia é meritória, e eu nem sou do tipo de pessoa que pensa que, com tanta dificuldade e pobreza, o Governo não devia investir neste tipo de acções, mas gostava que todo este processo fosse diferente. Provavelmente a literacia e a competência tecnológica das crianças não reside no facto de terem ou não acesso a um computador aos 8 ou 9 anos, mas mais na capacidade que as famílias têm em casa de as estimular para a cultura.

És a favor do novo acordo ortográfico da lingua portuguesa? Porquê?

Sou radicalmente contra e já tornei pública essa opinião no outro blog que partilho com uns amigos de longa data, o Chapéu de 3 Bicos (www.chapeude3bicos.blogspot.com). E a principal razão pela qual sou contra é muito simples: eu acho que as línguas evoluem naturalmente e de acordo com as necessidades e desígnios de dada sociedade, e não por imposição. Não aceito mudar a minha forma de escrever só porque há uma legislação ou um acordo oficial nesse sentido. Não aceito que se perverta a riqueza e elasticidade de uma língua só porque alguém se lembrou que tudo devia ser uniformizado. O inglês, que é das línguas mais faladas do mundo, não é uniformizado, e não é por isso que se deixa de entender, de se falar, de se cruzar. E nem sequer é por isso que se deixam de vender livros americanos no Reino Unido e vice-versa. Provavelmente até serão estes problemas e interesses que estarão no cerne desse famigerado acordo.

Como antigo aluno, professor e actual estudante universitário, conta aos nossos leitores, o que achas do ensino português? Que medidas tomarias se fosses a Dona Maria de Lurdes Rodrigues?

O ensino em Portugal já viu melhores dias. Sobre o ensino básico e secundário, toda a convulsão criada à volta dos professores e das escolas espelha que algo não está bem. Não se trata só, na minha opinião, da teimosia desta ministra. Há problemas que já foram sendo acumulados desde há muitos anos, e estou a falar particularmente em má gestão pedagógica do ensino, em criação de programas e métodos por académicos que nunca puseram um pé numa sala de aula para ensinar, em recomendações de psicólogos e cientistas da educação, que se movem através de paradigmas completamente ultrapassados e redutores. E desde sempre se tentou tratar dos problemas errados e não destes. Esta ministra apenas representa o radicalizar e o culminar das políticas do ensino que tivemos a partir dos anos 80, que têm vindo a atirar progressivamente toda a responsabilidade para as mãos dos professores. É mais fácil e mais económico culpar os professores do que fazer reformas bem feitas.
Se eu fosse Ministro da Educação, o que eu duvido que alguma vez fosse, estaria numa situação muito difícil, pois teria que lidar com a vontade do Governo em reduzir custos e em optimizar ao máximo as finanças do ensino, mas nunca trataria os professores da forma autista e prepotente com que esta Ministra os trata. E faria de tudo para que a sociedade compreendesse quais os verdadeiros problemas do ensino. Talvez, e volto a bater nesta tecla, se as famílias conseguissem educar melhor os filhos em casa, a escola fosse muito melhor.

Sempre foste um apaixonado pelas ciências da vida. Recordo-me, nas nossas aulas, que não és grande adorador das religiões. Fala-nos disso.

A minha fé não se foca em transcendências. Não acredito nem consigo acreditar em algo que seja superior àquilo que nos forma.
Como homem das ciências, tenho vindo ao longo do tempo a radicalizar as posições. Não adianta, no meu ponto de vista, tentar encontrar pontos de encontro entre a maior parte das religiões, incluindo o cristianismo, e os conhecimentos científicos. Aliás, ciência e religião são opostas. A religião alimenta-se de dogmas. Sem eles, todo o edifício de crenças ruiria. A ciência não reconhece verdades absolutas: aquilo que sabemos hoje é apenas a melhor explicação que conseguimos alcançar para a realidade que nos rodeia. Amanhã, alguém vai descobrir algo que põe em causa o que sabemos, e a ciência vai dar mais um passo. Na ciência isto é o princípio e o meio. Na religião, seria o fim.
Se falarmos, por exemplo, do catolicismo, ainda há pouco tempo, o seu mais alto representante referiu que o uso do preservativo não resolveria o problema de transmissão de HIV em África. Isto é de uma irresponsabilidade atroz, alguém com grande influência, que muitas pessoas em todo o mundo seguem e respeitam, tomar posição contra o uso do mais eficaz – e isto está comprovado com estudos – meio de prevenção contra o contágio de HIV. Defende a Igreja Católica que as pessoas se refreiem, se abstenham de ter relações sexuais. Mas isso é impossível. Está na nossa natureza sermos sexualmente muito activos. O ser humano é dos poucos animais que tem prazer no acto sexual, e o único em que esse prazer é consciente. Isto deve-se ao facto de, na nossa evolução, termos tido estratégias reprodutivas bastante diferentes dos restantes mamíferos. Somos dos animais com a sexualidade mais complexa, mas a maior parte das religiões não o admite e tem tentado, ao longo de milénios, castrar esta faceta tão humana e tão misteriosa.
É um pouco esta postura que me rege profissionalmente, pois não consigo falar de ciência pelo prisma da religião, e tendo a afastar estes campos o mais possível, principalmente como professor e nos níveis que ensino. A religião pode, e na maior parte dos casos é, um obstáculo ao conhecimento. Não se pode evoluir quando um conjunto de pessoas acha que temos que reger a nossa vida por um conjunto de normas escritas sabe-se lá quando e por quem, e ainda pior interpretadas por aquelas pessoas. Já tive situações, enquanto professor, tão ridículas como não poder convidar uma cientista perita em reprodução assistida, para dar uma palestra num estabelecimento de ensino católico, só porque a procriação artificial é contra os propósitos da Igreja. Isto é, claramente, escolher a ignorância em detrimento do livre arbítrio.

O que te levou a seguir o ensino?

Porque acreditava que podia dar o meu contributo à sociedade, pondo as minhas capacidades ao serviço da educação de futuras gerações.

Recordo-me dos teus métodos como professor. Foste o único que fez o meu percurso escolar num gráfico exponencial, assim como também ias buscar algumas das tuas fichas de avaliação a antigos colegas. Achas que a maioria dos professores é e devia ser assim? Ou seja, deviam ser mais criativos, mais bem-humorados e usar o trabalho dos colegas de profissão?

Devia haver uma maior partilha construtiva entre colegas, sim. Sempre usei materiais de colegas e sempre cedi sem nenhuma reserva materiais meus. O pior é que a pouca partilha que existe, hoje em dia, é mais sobre problemas burocráticos do que sobre materiais e métodos de ensino. Os professores andam saturados, sem tempo nem disposição para tratar do mais importante.
Quanto à criatividade e método próprios, um professor tem que ser, em primeiro lugar, um comunicador. Tem que saber passar a mensagem, seja de que maneira for. E um professor, como qualquer profissional, tem que tirar prazer da sua profissão. Se não te estás a divertir, é porque não o estás a fazer bem. Eu, neste momento, raramente me consigo divertir e não consigo encontrar a minha função dentro deste sistema de ensino, por isso vou sair.

É uma mudança substancial, trocar a Biologia por algo mais concreto como a Nutrição. Queres tornar-te no próximo Fernando Povoas, ou enveredáste por tal caminho, devido à falta de estabilidade como professor?

A Nutrição é uma paixão antiga e não deixa de ser um ramo da Biologia. Em termos científicos, não é uma mudança muito grande, mas em termos de acção, de aplicação, já se encontra na área da saúde. Tem que se lidar na mesma com pessoas, mas a forma é um pouco diferente. Tem que se comunicar muito bem também, mas com outro tipo de linguagem, com outra ética e com outros processos. De qualquer forma, não abandono nunca a Biologia, muito menos a minha área de investigação, relacionada com a evolução do comportamento social humano. Até porque tem aplicações em Nutrição. Aliás, os alimentos são factores centrais na evolução de qualquer espécie animal.
Para me tornar no próximo Fernando Povoas, teria que tirar medicina, para poder receitar fármacos que facilitam o emagrecimento, o que não é nem de perto nem de longe a função de um nutricionista. Temos que apelar à vontade das pessoas, ao seu comprometimento com aquilo que desejam ou necessitam para melhorar ou manter o seu estado de saúde. Olhar para a parte mental das pessoas é tão importante como atender à parte física e, como tal, não adianta arranjar soluções milagrosas se depois as pessoas não mudarem crenças, hábitos e comportamentos. Podem ficar dependentes de um fármaco, ou voltar a engordar, ou não controlar correctamente a sua alimentação, com consequências que podem ser, a médio prazo, nefastas para o seu organismo.

Gostavas de leccionar numa universidade?

Seria um desafio. O ensino universitário não é mais que a transmissão, em primeira mão, de conhecimentos que estão a ser desenvolvidos. O professor universitário, portanto, tem que ser o construtor dos conhecimentos que ensina, e tem que preparar os futuros profissionais para serem bons técnicos, bons pesquisadores, bons investigadores. Como tal, a responsabilidade é imensa.

Educação sexual ou aulas de música no secundário? O ensino da língua inglesa já é dado na primária e na pré-primária, mas apenas opcional. Crês ser uma boa medida ou tornar-se-á como EMRC, sendo que só indo quem quer, as turmas são sempre muito reduzidas?

Eu creio que todo o sistema de ensino devia mudar de modelo. Preferia ver mais opções artísticas e técnicas no ensino, que abrissem os horizontes e aumentassem a sensibilidade desde muito cedo. Mas atendendo ao rumo que a escola em Portugal está a levar, uma mudança de modelo não é mais que uma utopia.
Temos um sistema que não respeita a individualidade e não dá opções. Não se trata de olhar para a opção como algo que “só vai quem quer”, mas antes como “tens a, b, c e d: escolhe”. Neste sentido, o modelo americano de ensino é muito interessante: há disciplinas nucleares e depois, todo um conjunto de actividades muito diversificadas.
Não concordo em compartimentar disciplinas, agrupamentos, cursos. A educação sexual na escola, na minha opinião, não deve ser uma disciplina, com programa, professor e horário, pois desta forma não cativaria ninguém, não interessaria ninguém. Seria apenas mais uma no meio de tantas. A educação para a sexualidade deve fazer parte de qualquer projecto educativo de qualquer indivíduo, e os projectos educativos, friso mais uma vez, começam em casa. De resto, a escola pode e deve dar resposta à formação em sexualidade dos indivíduos. Os professores sempre se podem preparar, sendo-lhes dada uma maior formação. Os psicólogos podem ser úteis aqui, estando presentes. Para isso, as escolas devem criar condições de trabalho. A maior parte das escolas não tem um psicólogo a tempo inteiro.

Vamos mudar de tópico. Desporto. Falo com um adepto ferrenho do Invicto Futebol clube do Porto, mais um sinal que tens bom gosto, assim como eu (risos). O FCP prepara-se para a conquista de mais um título – o quarto seguido; poderá também ganhar a taça de Portugal e é o único que continua na grande prova europeia dos campeões. Como vês o percurso do nosso clube esta época?

Geralmente vejo num café acompanhado por amigos. (risos)
O FCP tem estado no topo da Europa há muitos anos. Tem tido muitas participações consecutivas na Liga dos Campeões, e com a sua experiência e qualidade do seu plantel, é normal que chegue aos quartos de final como chegou, com mérito. A mim não me surpreende mais esta boa temporada. Já vi o Porto ganhar duas taças dos Campeões Europeus, gostava de ver a terceira, num futuro próximo. Claro que daqui para a frente é mais complicado, a pressão aumenta e os adversários são muito mais fortes. Mas virá um de cada vez, são 11 de cada lado, a bola é redonda e tudo pode acontecer. Preocupa-me apenas a eficácia na finalização, pois nos últimos jogos podia ter ganho com diferença significativa de golos e isso não aconteceu.
Relativamente ao campeonato português, espero que não deite tudo a perder. Há uma certa vantagem em relação aos competidores, mas não é assim tão expressiva, bastando uma má jornada para complicar as contas. É preciso calma, solidez defensiva e boas rotinas no meio campo, assim como uma maior eficácia no remate. O treinador, Dr. Jesualdo Ferreira, é uma pessoa muito moderada, com uma cultura táctica elevada, mas em algumas ocasiões tem medo de arriscar, de inovar. De vez em quando é necessário assumir o risco, e espero que a equipa o faça a tempo quando vir que, em algum dos 3 troféus que disputa, isso se torne necessário.

Durante os dias que escaldam o depois da final da taça da liga entre leões e águias, houve mais um caso grave de incompetência no futebol português – Um pénalti que não existiu, e consequente vitória encarnada. O Sporting abandonou a direcção da liga de clubes e a guerra está relançada. O que tens a dizer da verdade desportiva, apitos dourados ou encarnados e do fraco futebol e as sua dificuldades em Portugal?

Há muitas variáveis neste caso: por causa disto, parece que ninguém se lembra dos 12 golos que o Sporting sofreu numa única eliminatória da Liga dos Campeões; por causa disto, parece que a Taça da Liga, troféu com enormes lapsos de organização, é uma taça muito importante, quando não é! Veja-se a forma como o Belenenses foi afastado. Veja-se a forma como o Porto, felizmente, se foi retirando. Entende-se, por exemplo, que não haja observadores de árbitros nesta competição? Com que propósito?
Eu acho que o Sporting está a criar uma tempestade num copo de água com todas estas reacções.
Acho, também, que o árbitro não actuou bem no jogo, e actuou pior ainda no final, quando veio à comunicação social admitir o erro. Nunca tinha visto um árbitro a faze-lo de forma tão peremptória antes.
Penaltis inexistentes vão sempre acontecer. Os árbitros são humanos, alguns erram, outros corrompem-se.
A verdade desportiva é algo que não existe. Há todo um conjunto de realidades virtuais desportivas, digamos assim. E isto passa-se não só em Portugal como noutros países. Em Itália, o Berlusconi é o exemplo perfeito de manipulação de interesses em favor do seu clube. Tudo isto é mau para o futebol e mau para o desporto em geral. A causa deste mal e da existência de tanta corrupção, é que o futebol é um desporto de massas, que movimenta demasiado dinheiro. Onde há muitos recursos financeiros, há corrupção e isto também faz parte da natureza humana. Infelizmente.

E no resto do mundo, como vês o futebol e os outros desportos?

Sinceramente não ligo muito ao desporto fora de portas. Já segui muito desporto motorizado, mas quando o Ayrton Senna morreu, fiquei um pouco desinteressado.

Consideras-te um homem amante de artes? Gostas mais de quadros ou esculturas?

Fotografia. Um hobby que está a ganhar importância no meio dos outros todos.

Vamos agora para a bancada parlamentar. Fala-se de uma nova ponte sobre o Tejo, de um novo aeroporto, do caso Freeport e de um Tgv. O que dizes da política portuguesa e, se não é indiscrição, em quem vais votar nas próximas eleições portuguesas e porquê?

Preferia ver discutidos, na política portuguesa, assuntos como a sustentabilidade da segurança social, o desemprego, a injustiça no acesso aos serviços de saúde, listas de espera nos hospitais, miséria e insegurança nos bairros sociais, degradação dos centros históricos das cidades, erosão do litoral e outros problemas ambientais…
Há problemas importantes no nosso país, muito mais urgentes do que os que falaste. Infelizmente, são estes os mediáticos. Até parece que existem só para que nos esqueçamos dos problemas reais que nos afectam directamente. Andamos alienados e entretidos a falar sobre minudências para nos preocuparmos com o que realmente interessa.
Temos uma classe política que não dá o exemplo, que regra geral não é digna o suficiente para ser eleita. Alem disso, eu não acredito na democracia quando não há cultura suficiente para saber eleger. A democracia não funciona com ignorância. A maior parte dos eleitores ignora o poder que tem e desinteressa-se pela política. Daí as abstenções.
Politicamente, sempre soube de que lado estava. Venho de uma tradição de luta contra a opressão e o fascismo. Tive familiares que passaram por dificuldades e perseguições durante o regime do Estado Novo. Continuo a acreditar que há um mundo à esquerda e outro à direita, com interesses diferentes e pontos de vista diferentes. Para mim não existe centro, não há posição de esquerda que possa ser complementada por outra de direita. Por isso, estou do lado do progresso, do lado da igualdade, do lado da oportunidade para todos. Sou de esquerda, claro, e voto sempre à esquerda.

Barack Obama, Hugo Chavez ou Durão Barroso?

Entre esses três… Che Guevara.
Obama é uma esperança em pequenas mas cruciais mudanças nos EUA, que possam garantir mais paz e estabilidade mundiais. Esperemos que sim. Só que eu temo que os EUA sejam mais dominados pelos grandes tubarões do capital do que parece, e que outros conflitos surjam entretanto, para alimentar a bem oleada máquina de guerra e agressão americana.
Chávez tem vindo a dar muita força às classes trabalhadoras da Venezuela, ao retirar progressivamente a produção (e com isso os lucros), das principais indústrias do país das mãos dos estrangeiros. O seu modelo de socialismo é interessante, e assenta em bases fortes e com raízes profundas no que respeita à identificação com a realidade local. É um excelente comunicador, e inteligentíssimo. Mas aquela mudança constitucional para que se pudesse candidatar a todos os mandatos que quisesse, cheira-me a tique ditatorial.
Barroso é apenas um indivíduo mesquinho que reuniu os maiores sátrapas do mundo numa cimeira nos Açores, onde decidiram invadir o Iraque. Depois ganhou fama, ainda não sei à custa de quê, e prepara-se para se fazer ao segundo mandato como presidente da Comissão Europeia.

Vamos agora para a parte final e a tua mais desejada. Musica.
Foste, sem dúvida alguma, a pessoa que até agora colocou no meu blogue, o comentário mais extenso, crítico e valioso. Deixa que te responda ao mesmo da seguinte forma:

Concordo com o que dizes na maior parte das tuas palavras, deixa-me porém, que te diga, que embora nenhum dj ultrapassará os Queen ou os Pink Floid, pois a melhor música é sem dúvida a analógica e também a mais antiga. Agora falta de criatividade na música electrónica – nem por isso. Repara, tu só falas-te de dois estilos dentro do electrónico, o chill e o house. Ora bem, este segundo tem dentro dele o electro, o progressivo, o comercial, o acid, o minimal e esse mesmo, o chill ou antigamente denominado soulfull house, devido á sua inspiração na soul music. Se não fossem as mesas de mistura, onde estaria a Madonna agora? A Britney Spears e outros cantores. Coloca todos eles sem bass ou samples que modificam a sua voz e terás muito poucos com qualidade. É o que se vê nos concertos. A música house já foi considerada gay-music e drug-music, mas embora todas essas visões acho-a á mesma uma grande forma de arte. Consegues juntar a ela a clássica, exemplo disso o dj tiesto; a rock, a pop, até mesmo o jazz. Vejo-o como das formas mais criativas de me expressar e por isso mesmo me dedico ao djing. Saberás qual a sensação, quando actuei numa discoteca onde fui acompanhado por um baterista e um guitarrista? A electrónica é isto mesmo, é poderes fazer o que quiseres, como e onde quiseres. Sim, é um facto que algumas das batidas estão pré-definidas, mas nem todas. Por fim bato palmas á tua última citação, a música é só uma, os rótulos são para embalagens supérfluas.

Se possível, gostaria que comentasses estes meus ditos.

Cada vez sou mais contra o uso de electrónica para tentar melhorar a qualidade duvidosa dos músicos. Cada vez sou mais a favor para experimentar coisas novas. É preciso saber do que se fala e conhecer. Admito que o que conheço de música electrónica para discotecas é muito pouco, até porque já nem frequento esses meios, e fico-me mais por música electrónica não relacionada directamente com a aglutinação e a dança, e música que utiliza alguma electrónica em fusão com acústica.
Mas deve ser uma sensação muito interessante teres um público à tua frente e tentares seguir a tua onda ao mesmo tempo que lhe dás o que ele quer ouvir e sentir. De qualquer forma, um DJ é um músico? Talvez haja partes do trabalho do DJ em que sim. Outras, não. Por isso são DJ’s e não instrumentistas. Se calhar, estamos a falar de mundos distintos, que se encontram e podem encontrar, mas contudo são coisas diferentes. Haja mérito no trabalho de uns e de outros.

Falas-te em jazz de fusão. Desconheço por completo. Fala-me dele e dos teus gostos musicais.

O jazz de fusão é uma forma de música que mistura jazz com outras formas musicais, principalmente com rock, pop ou world music. É um estilo muito livre e aberto, pelo que abre caminho à complexidade e à inovação. Há muitos músicos de jazz tradicional que, ao longo da sua carreira, principalmente nos anos 70, quando havia um grande apelo à diferença e à exaltação da complexidade na música, fizeram álbuns de fusão. Até o Miles Davis e o Herbie Hancock! Mas os nomes mais conhecidos são, talvez, os Weather Report, Pat Metheny, Soft Machine…
Mas o jazz de fusão nem é dos meus estilos preferidos. Pessoalmente, sou grande apreciador de Rock Progressivo, com bandas como os Génesis (da altura do Peter Gabriel!), Yes, Pink Floyd, Marillion, King Crimson, Gentle Giant, Camel, etc. Principalmente durante os anos 70, é impressionante a quantidade de trabalho que estas bandas faziam. Foi um grande boom de criatividade, que fez avançar a música depressa demais. Talvez também por causa disso, no final dos anos 70 tenha surgido o Punk, que se afirmou contra tudo. Quando há uma certa corrente artística, essa corrente é sempre substituída por algo que em geral é radicalmente diferente.
Nos meus gostos musicais tem que haver sempre uma perspectiva histórica, um enquadramento. Prefiro apreciar uma música sabendo o que ela representa na sociedade em que foi criada. Por isso tenho sempre mais dificuldade em ouvir música contemporânea do que música com 30 anos. Até porque ainda não compreendi até que ponto a música actual não será um revivalismo. Todo este hype que se vive com os anos 80 e final dos 70, na música, na moda e nas restantes artes, pode estar desenquadrado da nossa realidade actual. Parece que de repente todos querem ser iguais aos Joy Division. Ainda não me debrucei o suficiente sobre trabalhos que me parecem ter mérito, como os Killers, Franz Ferdinand, White Stripes, e outros, pois não consigo ainda enquadrar correctamente a música com o seu significado social.
De resto, ouço de tudo um pouco. Por exemplo, a música erudita está-se a tornar um vício enorme. Adoro o trabalho de compositores como Rachmaninov, Mussorgsky, Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov.
Talvez a minha maior limitação em termos musicais seja a de saber que há tanta música que já foi feita no passado e querer aprecia-la para tentar compreender melhor o presente, que nunca consigo chegar ao presente a tempo. Mas não tenho problemas com isso. Talvez daqui a 30 anos ouça a música que se faz agora.

A música em Portugal está melhor ou pior que antigamente?

Está melhor. Sejamos optimistas! Há todo um conjunto de gente nova a fazer boa música e gente menos nova a melhorar. Claro que há muito lixo, muita “fast-food”, criada à pressão com propósitos comerciais, muita propaganda, muito movimento de massas, muita carneirada, muito pouca cultura para saber apreciar música, muito pouca educação musical e sempre uma maior facilidade nos meios de comunicação social em deixar passar o produto estrangeiro em detrimento do nacional. Mas em termos de liberdade criativa, estamos mais abertos a coisas novas. Veja-se por exemplo o caso da Deolinda, um projecto bastante original que junta fado com sentido de humor e letras simples e quotidianas com uma interpretação instrumental e vocal muito boa. Penso que há uns anos atrás não haveria receptividade para algo tão fora do comum, e que agora as pessoas procuram cada vez mais coisas novas e diferentes.
Nos anos 80 foi um problema pôr artistas a cantar em português. Toda a gente acreditava que a nossa língua não prestava para a pop/rock. Os Xutos e o Rui Veloso, entre muitos outros, provaram que era mentira. Nos anos 90, quando quase ninguém se lembrava de cantar em inglês, apareceram os Silence 4 e venderam como tremoços. Isto prova que estamos ávidos de originalidade.

Que perspectivas para o futuro da musica? Que estilos predominarão? Que cantores crês que se afirmarão?

O futuro é negro se a indústria não se adaptar. Principalmente em termos técnicos. O CD está a ficar esgotado como formato, e os formatos digitais como mp3 não são garantia de qualidade sonora. Há todo um conjunto de limitações técnicas como a gama dinâmica, por exemplo, que fazem do mp3 um enorme problema. Maior do que tem sido com os CDs, que têm sido masterizados com níveis de compressão muito elevados para tocar melhor nos auto-rádios e aparelhos de feira, mas que num sistema de som que lhe possa retirar toda a informação, nota-se a má qualidade da masterização. Esta parte técnica preocupa-me, pois gosto de apreciar a música como um todo, e a melhor forma de estar mais perto daquilo que o intérprete pretendia no momento em que fez a música, é reproduzi-la com a maior fidelidade possível. Gosto de ouvir a música em casa, no silêncio e tenho um sistema que me permite usufruir de todos os pequenos e grandes montes e vales de que a música é feita. Por causa disso, não dispenso o vinil, pois na maior parte dos casos, não sofre do problema de compressão e falta de dinâmica que os CD’s, principalmente desde meados dos anos 90, sofrem.
A indústria musical devia ser pressionada neste sentido também. O de fornecer ao cliente a melhor qualidade possível, quando o custo de produção de um CD mal masterizado é igual ao de um bem masterizado. É incrível que, com a evolução da tecnologia, a qualidade do produto final seja pior do que quando essa mesma tecnologia apareceu.
Relativamente aos artistas, creio já ter dito tudo na resposta anterior. Acredito que o futuro seja feito de surpresa e originalidade, e espero que esta onda de revivalismos de épocas anteriores passe à história. Todos queremos evolução e coisas novas e diferentes, verdadeiramente originais. O que passou pode e deve ser uma influência e não um meio de imitação.

Does humor belong in music”? (gargalhadas)

Isso é uma citação do grande Frank Zappa, uma pessoa com um sentido de humor enorme. Talvez um dos maiores génios da música de sempre. E como tal, um incompreendido. Suspeito que o Zappa, daqui por uns séculos, será tido como grande músico a par do Mozart, e até do José Cid. Respondi à pergunta?

Cinema. Diz-te alguma coisa? Há anos que se tem avistado uma grande decadência nesta outra arte. Em Portugal, achas bons os filmes? No caso de um filme recente, ” a arte de roubar”, achas credível que sendo falado em inglês, o público adere mais?

Cinema diz-me muito, mas já não vou a um cinema há muito tempo. Como sabes, os cinemas desapareceram do centro do Porto, restando muito poucas alternativas. Os centros comerciais são locais que não me agradam de maneira nenhuma, nem gosto muito de blockbusters, muito menos de os ver numa sala cheia de miúdos barulhentos a mastigar pipocas de boca aberta. Tenho saudades das velhas salas de cinema e do seu cheiro característico, de sair e estar no centro da cidade, do público que assistia nessas salas. Por isso tenho preferido ver algum cinema mas em casa.
No nosso país, o cinema sempre foi algo feito de forma muito elitista, muito pseudo-erudita, muito entregue sempre aos mesmos. Temos pouca gente a fazer arte por cá, e poucos incentivos, o que acaba por resultar sempre no mesmo tipo de filmes. Por um lado, temos aquele cinema mais mainstream, por outro, temos o exacto oposto, o erudito e quase incompreensível. Não há meio-termo.
Não assisti ao “Arte de Roubar”, mas vi o trailer, e quer-me parecer que a escolha do inglês tem a ver mais com questões estéticas. Acho que quiseram fazer um filme estilo Tarantino, por isso fazia todo o sentido ser em inglês. E quem sabe, também para ter mais aceitação lá fora.

Slumdog Millionaire ou O estranho caso de Benjamin Button? Oito óscares contra sómente três. Que achaste de ambos?

O do Benjamin não vi. O Slumdog Millionaire achei excelente. Mereceu os prémios.

Por fim, sei e agradeço que fará uma rubrica esporádica para o Vértice. Que coisas pensas fazer para enriquece-lo? (risos)

Contribuir financeiramente? (risos)

Que achas deste blog? Mudarias algo nele? Porquê?

Tem qualidade e potencial! Por enquanto ainda é novo, por isso não se mexe!

Para concluirmos, gostava que deixasses uma mensagem aos nossos leitores.

Se chegaram aqui a este ponto, prezados leitores, é porque leram a entrevista. Por isso são pessoas corajosas e pacientes, pelo qual vos felicito.

Muito agradecido por toda a fantástica colaboração, meu caro,
Saudações Fortes e amistosas e até uma próxima
.

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