Manuela Moura Guedes e a (Im)parcialidade

Diogo Costa Leal
“Boas. Eu sou o Diogo Costa Leal e este não é o jornal de sexta-feira.”
Chove lá fora. Estamos em Junho e estou numa freguesia algarvia, na biblioteca da universidade. Nem parece início de Verão. A chuva cai, imparcial – Todos são molhados, sem uma escolha prévia. E é disto que vou falar nestas linhas seguintes, da imparcialidade, da falta dela e sim, da ultimamente famosa Senhora Manuela Moura Guedes como inspiração.
Começarei por uma palestra a que assisti na minha universidade. Os temas envolvidos eram a produção e jornalismo televisivos. De um lado um antigo aluno da UALG que é agora produtor numa estação de televisão bem conhecida; do outro um jornalista da TVI. Este último tinha uma visão demasiado realista e “bruta” vá, do mundo árduo que é o jornalismo. Estava a beber aquela palestra como quem tem uma sede de conhecimento interminável. Ele debatia por fim o futuro do jornalismo, que o mundo lá fora é um autêntico combate pela superioridade e o que temos nesta profissão de mais importante é o nosso nome e como dele nos servimos. Eis que aqui o jovem Diogo Leal, no segundo ano do curso de ciências da comunicação, decide participar na altura das questões e observações.
“O senhor no último tópico da sua intervenção falou acerca do futuro do jornalismo. Pois bem, o que vemos no presente é um grande tema, a imparcialidade ou a falta dela, isto até é coincidente visto o senhor ser da TVI e anota-se bem isto no telejornal de sexta-feira com a senhora Manuela Moura Guedes e o senhor Vasco Pulido Valente. Eu no futuro gostaria de ver um jornalismo mais correcto e imparcial. O que poderá ser feito para que isto mude no nosso país?” – Foi assim mesmo que o questionei. Creio ter sido uma questão pertinente. De rompante assisti a reacções repartidas por parte da restante plateia no anfiteatro. Uns concordavam comigo, outros pelo contrário, eram grosseiros e cépticos. Respeito todas as opiniões, embora isso não implique que as aceite. “Desliga a televisão. Muda de canal” – Foram basicamente as palavras dele, respondendo á minha questão. A coisa já estava a ficar para o violento e eu não gostava muito da maneira como ele encerrava o assunto. Enfim, deveria ter respondido, mas não o fiz.
É por devido aos portugueses desligarem a “televisão” e “mudarem de cana” que o país está como está. É devido á ignorância, resignação e escassez pela aprendizagem e mudança que as coisas permanecem incólumes. É por isso que existe abstenção de voto, é por isso que se desconhecem as políticas do nosso país – Se não conheço um assunto, como posso ter “voto” na matéria para o questionar ou não? A resposta deste senhor só reflecte a sociedade infeliz onde vivemos. Não se admirem se as emigrações aumentarem, incluindo a minha.
Voltando a puxar a carroça para trás, estava eu a falar dessa intitulada jornalista que é a senhora Manuela Moura Guedes. Ora bem, tenho eu como estudos e pesquisa para o que vou falar a seguir uma entrevista recente da mesma para um jornal novo, vídeos em que vi entidades públicas que finalmente a confrontaram, a palestra que referi e os meus conhecimentos no ramo das ciências da comunicação, visto ser o curso que estou a frequentar. Recentemente a ERC (entidade reguladora da comunicação social), juntamente com o nosso actual primeiro-ministro depois também umas intervenções necessárias do Senhor bastonário dos advogados Marinho Pinto – todos estes nomes criticaram-na, dizendo que a senhora é uma vergonha para o jornalismo português, para o canal, que falta-lhe deontologia nos seus actos em directo e que persegue a politica e o governo de forma constante.
Agora vem a parte mais interessante deste meu artigo. Falarei da senhora em questão e do jornalismo em si. Antes de dizer seja o que for há coisas que têm de ser bem anotadas: Não acho a Manuela uma pessoa um ser hediondo – muito pelo contrário – acho-a uma mulher de armas, activista pela justiça, direitos humanos e esclarecimento da verdade absoluta – Que raramente é mostrada e ela tenta ir contra isso. O que deita tudo a perder é ela ser má jornalista. Como comentadora, como entrevistada no programa da TVI 24 ou no tal jornal que li – É impecável, defende o que pensa com “unhas e dentes” e é das personalidades mais pragmáticas da nossa sociedade nacional. E porque digo eu que ela é uma má jornalista, depois de tanto elogio? Ela peca no seu desempenho profissional pelas implícitas opiniões que nele deposita. Eu sendo portista, se fizer uma reportagem ao presidente do Benfica não posso dizer que o mesmo é um tolo, que tem um bigode feio ou que o clube não presta. Era logo despedido. Ela sente-se tanto em casa e com as “costas quentes”, que o próprio Miguel Sousa Tavares já a confrontou em directo, visto ela não o deixar falar e ser ele o comentador, não ela. E é aqui também que se levanta outra suposição interessante – Se Manuela não tivesse o cargo poderoso que tem na estação televisiva, talvez fosse mais moderada e contida nas suas intervenções. Eu sendo de esquerda, nunca na vida ao entrevistar um militante do PS lhe iria dizer que o partido é do mais hipócrita possível na gerência do país. Era indubitavelmente expulso na hora.
Uma coisa é sermos livres de termos as nossas crenças pessoais. Falar de imparcialidade é muito difícil. Já umas colegas minhas de curso disseram: “A forma e disposição como escolhemos as questões a fazer a determinada entidade já nos faz parciais”. É bem verdade. Louco é aquele que não tiver e defender as suas próprias ideologias. Mas há que saber estacioná-las na garagem enquanto estamos a trabalhar. Como profissionais não podemos chamar de “bufo” um bastonário por puro divertimento, embora nos apeteça imenso. Quantas vezes me apetece mandar um professor meu dar uma curva ao bilhar grande, ou quantas vezes me apetece dizer certas verdades que magoariam certas pessoas, mas é outra coisa que vou aprendendo ao longo do meu crescimento como pessoa: “ muitas vezes o saber estar calado é deveras importante e abre muitas portas”.
Por fim quero comentar um excerto da entrevista feita á Manuela no tal jornal que li, em que ela diz que muitos dos estudantes que acabam o curso de comunicação vão para o mercado de trabalho com a ideia feita que tudo se baseia em teorias e que os estagiários não têm interesse (“pica”) pela inovação – Já o colega dela na palestra disse o mesmo. Pois bem, agora eu. Então isso implica que eu quando acabar o meu curso esqueça metodologias importantíssimas dentro da comunicação? Disciplinas como técnicas de expressão de verbal ou ética e deontologia da comunicação serão para jogar fora?! É isso que eles querem dizer, ao vermos depois as atitudes que vemos de total parcialidade no jornal de sexta-feira. Quero que isto mude, como futuro licenciado nestas vertentes quero ser diferente destes jornalistas, que ora se calam e são submissos a pressões de outrem; ou no outro oposto aqueles que não fazem jornalismo, mas sim um sensacionalismo exagerado.
Esta foi mais uma rubrica do Vértice Redondo, Texto e argumento pelo autor. Saudações,
Diogo Costa Leal. 09

Saber ser imparcial é o principio do jornalismo. Os jornalistas são informadores na sociedade, esse é o seu verdadeiro papel entre as massas, se por acaso as massas se moverem isso já são as suas acções promovidas pelos seus pensamentos ou interpretações pessoais das mensagens. Bom artigo, mais que bom, necessário… Um abraço, e quanto à curta os nossos agradecimentos. Se a quiseres colocar aqui estás à vontade